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De Onde Vem a Nossa Coerência?

Writer: Maíra Irigaray
Maíra Irigaray
Oct 13
13 min read

O Chá Que Vem da Floresta

Eu cresci dentro de uma religião ayahuasqueira. Uma religião baseada nos ensinamentos de Cristo, mas que tem como sacramento um chá sagrado que vem da Amazônia. Um chá bebido há milênios por povos indígenas, muito antes de qualquer igreja existir.

Desde menina, sentada em cerimônia, eu carregava uma compreensão que me parecia natural: quem bebe desse chá aprende a respeitar a floresta. Afinal, aquilo que nos cura, que nos abre, que tantas vezes nos ajuda a enxergar quem somos, nasce da mata e da sabedoria dos povos que a protegem.

Eu cresci acreditando que essas coisas caminhavam juntas. Que a espiritualidade nos tornava mais sensíveis à vida, mais conscientes das nossas escolhas e mais capazes de reconhecer o sagrado para além de nós mesmos.

Com o tempo, fui percebendo que a experiência espiritual não nos torna automaticamente coerentes. Que podemos viver algo profundamente transformador e, ainda assim, continuar carregando contradições. Eu também carrego as minhas.

E talvez seja justamente por isso que hoje eu queira conversar sobre esse assunto.

Não para apontar o dedo para ninguém. Mas porque algumas perguntas começaram a morar em mim, e eu sinto que preciso compartilhá-las.


De Quia a Ponte

Alguns anos atrás, saí da religião em que cresci. Não foi por mágoa, nem porque deixei de reconhecer o valor do que vivi. Foi porque compreendi que precisava seguir meu próprio caminho.

Entendi que as religiões podem oferecer algo muito importante: comunidade, pertencimento, estrutura e orientação. Em diferentes momentos da vida, todos nós precisamos de referências. Precisamos de pessoas que nos ajudem a atravessar o desconhecido.

Mas também percebi como, em alguns contextos, podemos acabar entregando a outra pessoa a responsabilidade pelas nossas próprias escolhas, pela nossa consciência e pela nossa relação com o sagrado.

Não falo de todas as religiões, nem de todos os líderes. Falo de uma possibilidade que existe sempre que deixamos de escutar a nossa própria consciência para seguir uma autoridade sem questionar.

Quanto mais estudo, vivo e observo, mais sinto que uma das grandes tarefas da nossa jornada é recuperar essa conexão interior. Não para acreditar que sabemos tudo, mas para aprender a discernir. Para reconhecer que ninguém pode viver a nossa consciência por nós.

Hoje, não me vejo como alguém que tem todas as respostas ou que deve dizer a outras pessoas como viver sua espiritualidade. Quero ser ponte. Criar espaços seguros de acolhimento, escuta e reconexão, nos quais cada pessoa possa se aproximar de si mesma e encontrar seu próprio caminho.

Porque, para mim, uma espiritualidade que amadurece não deveria nos tornar dependentes de quem diz conhecer a verdade. Deveria nos ajudar a viver com mais presença, responsabilidade, liberdade e amor.


Quem Ganha Com a Nossa Divisão?

O Brasil vive um momento de profunda polarização política. Famílias se afastam, amizades se rompem e, muitas vezes, já não conseguimos conversar sem que a diferença de opinião se transforme em uma ameaça ao vínculo.

Eu também sinto a intensidade desse momento. Tenho minhas convicções, minha história e meu posicionamento político. Não estou fora dessa realidade, olhando de algum lugar distante. Estou dentro dela, tentando compreender o que acontece conosco.

E uma pergunta não sai da minha cabeça: quem ganha quando deixamos de nos enxergar como seres humanos e passamos a enxergar uns aos outros apenas como adversários?

O que acontece quando a nossa identidade fica tão ligada a um candidato, a um partido ou a uma ideologia que já não conseguimos escutar quem pensa diferente?

Eu não acredito que todas as posições políticas sejam iguais, nem que suas consequências sejam as mesmas. Escolhas políticas afetam vidas reais, comunidades, territórios e o futuro das próximas gerações. Precisamos, sim, fazer escolhas e assumir as consequências delas.

Mas me pergunto se precisamos transformar essas escolhas em uma guerra permanente entre nós.

Há interesses que se beneficiam da nossa desunião. Há estratégias políticas e econômicas que exploram o medo, a indignação e a necessidade de encontrar um inimigo. E, enquanto gastamos nossa energia tentando vencer uns aos outros, podemos perder de vista as estruturas, as decisões e os interesses que realmente precisam ser questionados.

Às vezes, entregamos tanto poder às figuras que elegemos que esquecemos o poder que continua conosco: o de pensar criticamente, participar da vida pública, cuidar das nossas comunidades e cobrar responsabilidade de quem nos representa.

O Brasil não se resume a um presidente. É feito de milhões de pessoas, de suas escolhas cotidianas, de suas relações e das instituições que construímos e sustentamos coletivamente.

Isso não significa que todos tenham o mesmo poder, a mesma responsabilidade ou as mesmas condições de escolha. Existem desigualdades profundas, e reconhecê-las faz parte de qualquer conversa honesta.

Mas significa que não somos apenas espectadores da história.

E talvez a pergunta não seja somente o que está errado no país, mas também: o que está ao meu alcance transformar? Onde posso agir? Que tipo de mundo minhas escolhas ajudam a construir?


O Amor Como Semente

Eu acredito que estamos vivendo um momento de transformação profunda, tanto coletiva quanto individual. Na minha maneira de compreender o mundo, essa transformação também tem uma dimensão espiritual.

E o que mais me preocupa é perceber como o medo e a intolerância podem se espalhar entre nós, inclusive entre pessoas que compartilham uma busca espiritual.

Se tem algo que continuo aprendendo com a ayahuasca, é que o amor não deveria depender de concordância.

Amar alguém que pensa como nós pode ser fácil. O desafio aparece quando encontramos alguém cujas escolhas nos ferem, cujas ideias nos assustam ou cuja visão de mundo parece completamente distante da nossa.

É aí que o amor deixa de ser apenas uma palavra bonita e se torna uma prática.

Isso não significa aceitar tudo. Não significa permanecer em relações que nos fazem mal, tolerar violência ou abrir mão dos nossos limites. Podemos discordar, denunciar injustiças, nos posicionar e lutar por aquilo em que acreditamos.

Mas podemos fazer tudo isso sem desumanizar quem está do outro lado.

Eu também sinto raiva. Também me indigno. Também tenho momentos em que é difícil compreender determinadas escolhas. Não quero escrever como se tivesse transcendido todas as minhas contradições, porque não transcendi.

Estou aprendendo.

E, nesse aprendizado, volto sempre à imagem de uma semente.

O ódio pode encontrar terreno fértil e se multiplicar. Mas o amor também se espalha. Um gesto de escuta, uma conversa que não termina em humilhação, uma mão estendida quando seria mais fácil virar as costas: tudo isso pode abrir uma possibilidade que antes não existia.

Talvez não consigamos mudar a consciência de ninguém à força. Talvez nem vejamos o resultado do que plantamos.

Ainda assim, podemos escolher o que cultivamos em nós e o que levamos para o mundo.

É nisso que quero trabalhar: na coerência entre aquilo em que acredito e a maneira como trato as pessoas. Não porque eu já tenha aprendido a fazer isso perfeitamente, mas porque sei o quanto ainda preciso aprender.


Amor Não é Fugir da Realidade

Eu sei que falar de amor em um momento como este pode soar, para algumas pessoas, como uma tentativa de fugir da realidade. Como se a espiritualidade fosse um lugar para onde nos retiramos quando o mundo fica difícil demais.

Mas essa não é a minha experiência.

Sempre fui politizada, sempre tive posicionamento e sempre fui ativista. Sou de esquerda e não tenho político de estimação. Não acredito que a espiritualidade exija que eu abandone meu senso crítico ou deixe de me responsabilizar pelo mundo em que vivo.

Pelo contrário.

Para mim, a espiritualidade precisa encontrar expressão na vida concreta: na maneira como tratamos as pessoas, nas escolhas que fazemos, nas injustiças que decidimos enfrentar e naquilo que estamos dispostos a proteger.

O amor não substitui a ação política. Não substitui a justiça, a reparação, a proteção dos territórios ou a defesa dos direitos humanos.

Mas pode transformar a maneira como nos posicionamos e o tipo de mundo que buscamos construir.

Não quero usar o amor para silenciar a indignação de ninguém. Há indignações necessárias. Há momentos em que precisamos dizer não, estabelecer limites e nos levantar contra aquilo que ameaça a vida.

Quero apenas lembrar que existe uma diferença entre combater uma ideia, uma política ou uma estrutura injusta e concluir que a pessoa que está diante de nós deixou de merecer humanidade.

Talvez seja possível sustentar as duas coisas: firmeza nas nossas convicções e abertura para reconhecer a humanidade do outro.

É essa possibilidade que me interessa.

 

Coerência Não é Neutralidade

Quero deixar uma coisa clara: sair da guerra entre dois lados não significa ficar em cima do muro. Transcender a polarização não significa deixar de escolher.

Eu tenho escolhas a fazer, e algumas delas são muito claras para mim.

Como poderia ignorar as políticas que ameaçam a Amazônia? Como poderia me manter indiferente diante de projetos que colocam em risco os territórios, os direitos e a própria existência dos povos indígenas?

Minha história está ligada a essa floresta. Desde criança, bebo um chá cuja origem está na Amazônia e cuja história está profundamente ligada aos povos indígenas. Minha trajetória profissional e espiritual também me aproximou das pessoas que protegem esses territórios e mantêm vivas suas culturas e seus conhecimentos.

Isso tem consequências para as minhas escolhas.

Eu não poderia tratar como irrelevante o posicionamento de um candidato em relação à floresta, aos povos indígenas ou aos direitos humanos. Para mim, essas questões são fundamentais.

E essa posição não nasce simplesmente de um partido. Nasce da minha história, daquilo que aprendi, das relações que construí e da responsabilidade que sinto diante da vida.

Não estou dizendo que quem escolhe diferente necessariamente não ama a floresta ou não se importa com as pessoas. Cada um chega às suas escolhas por caminhos diferentes, atravessado por experiências, informações, medos, valores e contradições que nem sempre conhecemos.

Mas acredito que temos a responsabilidade de olhar com honestidade para as consequências dessas escolhas.

Posso respeitar uma pessoa sem concordar com seu voto. Posso acolher alguém sem abandonar meus princípios. Posso reconhecer a humanidade de quem pensa diferente e, ao mesmo tempo, trabalhar ativamente para impedir políticas que considero destrutivas.

Para mim, é aí que a coerência começa: não na ausência de contradições, mas na disposição de olhar para elas e assumir a responsabilidade pelo que escolhemos fazer.


Qual Família Queremos Proteger?

Uma das coisas que mais me fazem refletir é a maneira como a expressão “família tradicional” aparece tantas vezes no debate político e religioso.

Conheço pessoas que defendem esse ideal com sinceridade. Pessoas para quem a família é sagrada, que amam seus filhos, cuidam de seus pais e desejam oferecer segurança e valores às próximas gerações. Não tenho razão para presumir que esses sentimentos sejam falsos.

A pergunta que me interessa não é se essas pessoas amam suas famílias. É de onde veio a ideia de que existe uma única forma legítima de constituir uma família.

Recentemente, vi uma reflexão que me fez pensar sobre as próprias narrativas bíblicas.

Se olharmos para as histórias contadas na Bíblia, encontraremos famílias muito diferentes umas das outras, atravessadas por conflitos, escolhas difíceis, traições, perdas e configurações que não correspondem a uma imagem idealizada de harmonia familiar.

Caim e Abel, irmãos cuja história termina em violência. Davi, Bate-Seba e Urias, numa narrativa marcada pelo abuso de poder e pela morte. Salomão, descrito no texto bíblico como tendo muitas esposas e concubinas. E a família de Jesus, cuja concepção, segundo a fé cristã, é narrada de maneira singular.

Não trago essas histórias para desrespeitar a Bíblia ou a fé de quem a considera sagrada. Tampouco acredito que elas precisem ser interpretadas literalmente para que possamos refletir sobre seu significado.

Trago-as porque me fazem pensar: será que estamos procurando na tradição uma imagem de família que nunca existiu de maneira tão simples e uniforme quanto imaginamos?

A história das famílias humanas é diversa. E as ideias sobre casamento, parentesco, herança e papéis de gênero mudaram ao longo do tempo e entre diferentes sociedades.

Historiadores como Friedrich Engels e Gerda Lerner investigaram a relação entre a organização familiar, a propriedade, a herança e a consolidação de estruturas patriarcais. Seus trabalhos nos ajudam a compreender que muitas das normas que hoje parecem naturais foram construídas historicamente.

No Brasil, essa história também tem marcas concretas. O Código Civil de 1916 subordinava juridicamente as mulheres casadas aos maridos em diversos aspectos. O Estatuto da Mulher Casada, de 1962, ampliou sua autonomia jurídica, e o divórcio foi instituído no país em 1977.

Essas mudanças não significaram que todas as desigualdades desapareceram. Mas mostram que aquilo que uma geração considera imutável pode ser transformado pelas gerações seguintes.

Muitas das nossas avós viveram sob regras que limitavam profundamente sua liberdade. Hoje, podemos olhar para esse passado e reconhecer que nem tudo o que era tradicional era justo.

Isso não significa que a família tradicional seja necessariamente ruim, nem que as pessoas que escolhem viver dessa maneira estejam reproduzindo conscientemente uma estrutura de opressão.

Significa apenas que tradição, por si só, não é suficiente para determinar o que é justo, amoroso ou bom para todos.

Eu também venho de uma família, tenho um marido e filhos. Minha vida familiar é uma das formas possíveis de viver o amor, mas não é a medida pela qual julgo a vida dos outros.

Não me faz melhor nem pior.

E, quando penso nas tantas formas pelas quais as pessoas constroem vínculos, criam filhos, cuidam umas das outras e encontram pertencimento, não consigo acreditar que o amor possa ser reduzido a um único modelo.

Então, a pergunta que faço a mim mesma é: o que estamos realmente tentando proteger quando falamos em família?

Uma aparência? Uma tradição? Uma ideia que herdamos sem nunca questionar?

Ou estamos protegendo aquilo que faz uma família ser um lugar onde a vida pode florescer: o cuidado, a segurança, a responsabilidade, o respeito e o amor?

Talvez possamos honrar nossas próprias tradições sem exigir que todas as pessoas vivam segundo elas.

Talvez seja possível valorizar a família que conhecemos e, ao mesmo tempo, abrir espaço para reconhecer o amor nas famílias que ainda estamos aprendendo a compreender.


Jesus, o Revolucionário

Há algo nos ensinamentos de Jesus que sempre me atravessou: sua aproximação com aqueles que eram excluídos, sua atenção aos pobres, sua crítica à hipocrisia religiosa e sua disposição de confrontar os poderes de seu tempo.

Nos Evangelhos, Jesus não aparece apenas ensinando sobre o amor. Ele também age, questiona estruturas e se aproxima de pessoas que outros preferiam manter à distância.

E há uma frase que continua ecoando em mim: amar o próximo como a ti mesmo.

Não sou especialista em teologia e não pretendo dizer a ninguém como deve interpretar sua fé. Mas, quando olho para o modo como o nome de Jesus é invocado em tantos debates, fico me perguntando como esse ensinamento se relaciona com a intolerância, com a exclusão e com o desprezo por quem vive de maneira diferente.

Como conciliamos o amor ao próximo com a dificuldade de reconhecer a dignidade de quem não compartilha nossas crenças, nossos valores ou nossa visão de mundo?

Essa pergunta não é apenas para quem está do outro lado do debate político ou religioso.

É para mim também.

Porque é muito fácil falar de amor quando estamos entre pessoas com quem concordamos. Muito mais difícil é perceber quando nosso próprio discurso, mesmo em defesa de uma causa justa, começa a reproduzir a humilhação e o desprezo que tanto criticamos.

Não tenho uma resposta definitiva para isso. Tenho perguntas, inquietações e a vontade de continuar aprendendo.

Talvez a fé se torne mais viva quando deixamos de usá-la apenas para confirmar aquilo em que já acreditamos e permitimos que ela também nos questione.


De Onde Vem a Nossa Coerência?

Escrevo tudo isso pensando nas pessoas com quem compartilho uma história espiritual. Pessoas que conheço, que amo e que, em muitos casos, caminharam comigo em momentos importantes da vida.

Sei que algumas delas fazem escolhas políticas muito diferentes das minhas. Não quero reduzir suas histórias a um voto, nem presumir que conheço as razões mais profundas de suas decisões.

Todos nós somos atravessados por influências, experiências, informações e afetos. Todos temos pontos cegos. Todos podemos nos apegar a uma ideia porque ela nos oferece segurança, pertencimento ou uma explicação para um mundo que parece cada vez mais difícil de compreender.

Eu não estou fora disso.

Por isso, quando olho para as contradições entre espiritualidade e política, não quero me colocar no lugar de quem sabe mais. Quero fazer perguntas que também estou disposta a dirigir a mim mesma.

O que minhas escolhas dizem sobre os valores que afirmo defender?

Estou disposta a rever uma ideia quando encontro algo que a contradiz?

Consigo reconhecer a humanidade de alguém sem precisar concordar com suas posições?

E, quando digo que amo, esse amor aparece apenas nas palavras ou também na maneira como me relaciono com quem me desafia?

Se você bebe o chá que vem da floresta, talvez valha a pena se perguntar o que essa relação significa na sua vida. Não como uma prova de pureza espiritual, nem como uma obrigação de pensar exatamente como eu penso, mas como um convite a olhar para as conexões entre aquilo que recebemos e aquilo que escolhemos proteger.

Para mim, essa conexão é inseparável dos povos indígenas, de seus territórios e dos conhecimentos que atravessaram gerações. Não porque eu seja dona dessa história ou possa falar em nome desses povos, mas porque reconheço a responsabilidade que acompanha aquilo que recebi e aprendi.

E talvez cada um de nós tenha uma pergunta semelhante a fazer em relação àquilo que considera sagrado.

O que a minha fé me ensina a proteger?

O que os meus valores me convidam a questionar?

E onde existe uma distância entre aquilo que digo acreditar e a maneira como vivo?

Não precisamos ter todas as respostas. Precisamos, talvez, estar dispostos a fazer as perguntas com honestidade e sem a necessidade de sair delas como pessoas melhores do que os outros.


A Semente Que Escolhemos Plantar

Eu acredito que estamos atravessando um momento importante da nossa história coletiva. Chamo isso, na minha linguagem espiritual, de transição planetária. Mas, independentemente do nome que damos a esse tempo, estamos diante de escolhas reais sobre o tipo de sociedade que queremos construir.

E me pergunto se a transformação que desejamos para o mundo pode acontecer sem uma transformação na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Podemos falar de evolução espiritual, consciência, cura e uma nova era. Mas o que essas palavras significam se não conseguimos conviver com a diferença? Se usamos nossas crenças para nos colocar acima de alguém? Se o desejo de estar certos se torna maior do que a disposição de compreender?

Não acredito que precisamos concordar para nos amar. Tampouco acredito que amar signifique abrir mão da luta por aquilo que consideramos justo.

Acredito que podemos defender a floresta, os povos indígenas, os direitos humanos e a liberdade com toda a firmeza que essas causas exigem, sem transformar o desprezo pelo outro em parte da nossa identidade.

Talvez não consigamos convencer alguém a mudar de ideia. Talvez algumas diferenças permaneçam. Talvez existam momentos em que a distância seja necessária para proteger a nós mesmos e àqueles que amamos.

Ainda assim, podemos escolher não alimentar a desumanização.

Podemos escolher falar a verdade sem humilhar. Estabelecer limites sem desejar a destruição de quem está do outro lado. Reconhecer nossos próprios erros sem sentir que isso diminui a força das nossas convicções.

E podemos continuar perguntando, sobretudo a nós mesmos, se estamos vivendo de acordo com aquilo que dizemos ser sagrado.

O chá que me acompanha desde a infância vem da floresta. A história desse chá está ligada aos povos indígenas que guardaram seus conhecimentos ao longo de gerações. Minha relação com essa medicina me trouxe perguntas que continuam amadurecendo em mim.

Uma delas é esta: como honrar aquilo que recebi?

Para mim, a resposta não está apenas no que faço em cerimônia, nas palavras que uso ou nas experiências espirituais que vivi. Está também nas escolhas cotidianas, naquilo que defendo, nas relações que construo e na disposição de continuar aprendendo.

Não escrevo porque encontrei uma fórmula para viver em coerência. Escrevo porque sei que essa coerência precisa ser cultivada todos os dias.

E, neste momento em que tantas forças parecem nos empurrar para a desconfiança, o medo e a separação, quero continuar escolhendo a semente que desejo plantar.

Uma semente de amor que não exige concordância, não se confunde com omissão e não nos pede para fechar os olhos diante da injustiça.

Um amor que nos permita olhar uns para os outros sem esquecer aquilo que nos torna humanos.

Porque, no fim, não sei se a pergunta mais importante é quem está certo ou quem está errado.

Talvez seja esta:

Diante de tudo aquilo em que acredito, que tipo de pessoa estou escolhendo me tornar?

E, diante de tudo aquilo que considero sagrado, que tipo de mundo estou ajudando a construir?

 

 

 

 
 
 

1 Comment


Adam Larry
Adam Larry
11 hours ago

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